A campanha científica internacional CoMet 3.0 Tropics se encerra nesta sexta-feira (4) com registros inéditos de gases de efeito estufa, como o metano, um dos principais e mais potentes, em áreas do Pantanal, Cerrado e Amazônia. Ao longo de 40 dias, foram efetuados doze longos voos, com duração média de 9 horas, nos três biomas e com foco em áreas alagadas. Além do Brasil, a campanha científica obteve autorização para voos no espaço aéreo do Peru e da Bolívia. As atividades fazem parte da cooperação científica Brasil-Alemanha.
A integração entre medições a bordo da aeronave, observações por satélite e análises meteorológicas permitirão investigar a distribuição e as fontes de gases de efeito estufa, como o metano, como foco em áreas alagadas. Os dados serão empregados para validação e redução das incertezas dos modelos computacionais utilizados para gerar projeções climáticas globais e regionais para as próximas décadas e séculos, assim como apoiar a validação de futuras missões de satélites com foco no monitoramento de gases de efeito estufa.
“Os modelos de previsão de clima futuro têm uma incerteza muito grande, porque trabalham com 30, 100 anos à frente. Quanto mais conseguirmos reduzir essa incerteza, maior será a qualidade da previsão futura”, explica o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Dirceu Herdies. “Vários locais que sobrevoamos nunca tiveram medidas com campanhas aéreas, em alguns casos apenas por satélite. Com esses dados, podemos aprimorar os modelos e reduzir as incertezas nas estimativas globais de metano. Isso é fantástico, algo assim inédito e único”, complementa.
A correção dos modelos é feita por meio de dados reais, ou seja, medidas que possibilitam ajustar as parametrizações das equações matemáticas.
Os voos ocorrem em diferentes altitudes sobre locais de pesquisa. O primeiro sobrevoo, a cerca de 10km a 12km de altitude, é o de sensoriamento remoto e contempla todo o percurso planejado. Depois o avião desce, em geral em trajetória espiral, e refaz o mesmo percurso em baixos níveis, entre 1mil e 300 metros de altitude. “É bem baixo, muito próximo do solo para coletar dados in situ, que é a camada mais rasa da atmosfera”, detalha Herdies. “É nesse limite que visualizamos os picos de emissões”, complementa.
Herdies divide a coordenação da campanha com o cientista alemão Andreas Fix, do Centro Espacial Alemão (DLR, na sigla em alemão), que reúne cerca de 120 pesquisadores de diferentes instituições dos dois países. Contudo, a bordo da aeronave seguem apenas a tripulação e os operadores dos equipamentos, sempre acompanhados de um pesquisador brasileiro.
O avião HALO (sigla em inglês para Avião de Pesquisa para Altas Altitudes e Longo Alcance), que voou no Brasil em outras campanhas, como CAFE-Brazil e Acridicon-Chuva, é equipado com diferentes tecnologias para mensuração de gases de efeito estufa, meteorologia e outros parâmetros. As medidas in situ, por exemplo, são capturadas pelo equipamento Jena Instrument for Greenhouse gas measurements (JIG), do Instituto Max Planck de Biogeoquímica, capaz de registrar gases-traço atmosféricos ao longo do voo.
Foi esse equipamento que detectou os picos de concentração de metano sobre o Pantanal, uma das maiores áreas alagadas do mundo. Em alguns segmentos do voo de pesquisa número 4, os dados preliminares dos pesquisadores sinalizam valores que ultrapassam 2.040 ppb (partes por bilhão). Os aumentos mais pronunciados foram observados próximos ao sistema do Rio Paraguai, incluindo a região do Canal Mandioré. Picos de intensidade menor também foram registrados em áreas próximas aos sistemas dos rios Negro e Taquari, ambos no Pantanal.
Para ter um parâmetro, de acordo com o Relatório do Estado do Clima Global de 2025, publicado neste ano pela Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), a concentração de metano na atmosfera atingiu 1.942 ± 2 (ppb), 266% a mais do que nos níveis pré-industriais.
Durante o voo de pesquisa número 6, sobre o reservatório da represa de Balbina, em Presidente Figueiredo (AM), foram registrados picos de 2.050 ppb. “Os resultados preliminares indicam a presença de massas de ar localmente enriquecidas com metano”, analisa Herdies. Balbina, que represou o rio Uatumã da década de 1980, tem extensas áreas inundadas com vegetação submersa, em ambiente com baixa disponibilidade de oxigênio. A decomposição anaeróbia da matéria orgânica promove a produção microbiana de metano. Nos dois locais, os pesquisadores observaram heterogeneidade espacial de emissões de metano.
Houve ainda sobrevoo sobre o reservatório da Usina Hidrelétrica Serra da Mesa, em Goiás, considerado o maior do Brasil e um dos maiores do mundo em volume de água, com mais de 50 bilhões de metros cúbicos de água. “A vegetação é mais savana, pasto e a emissão é muito diferente. Quando sobrevoamos Balbina, a emissão é muito mais intensa, porque lá é floresta que foi inundada. Então o processo de geração do metano é muito mais intenso”, detalha o pesquisador.
Os voos na região amazônica incluíram o Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês). As torres instrumentadas medem ininterruptamente os fluxos e trocas entre a floresta e a atmosfera. A campanha também sobrevoou a região do Instituto Federal de Rondônia, próximo à capital Porto Velho, que há dez anos instalou o primeiro espectômetro FTIR para medição contínua de gases de estufa na atmosfera na América do Sul. O equipamento efetua a mesma medição dos sensores TROPOMI (Tropospheric Monitoring Instrument), instalados no satélite de órbita polar. “Obtivemos medidas de superfície, de satélite e no avião ao mesmo tempo. É algo inédito porque, em geral, isso ocorre em tempos diferentes”, fala sobre a importância científica.
A campanha científica iniciou quando a aeronave entrou no espaço aéreo brasileiro em Fortaleza (CE). O primeiro voo com coleta de dados foi realizado em 26 de julho. Todos os voos da campanha contaram com o apoio de coordenação aérea do Comando da Aeronáutica e autorização do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

