Em um Brasil onde a maioria da população era analfabeta e o rádio era tanto uma promessa de falar com as massas como uma tecnologia para poucos, uma emissora nasceu com a pretensão de “representar” o país. A Rádio Nacional, que faz 90 anos em 2026, despontou desde os primeiros anos com uma programação considerada inovadora e ambiciosa.
Criada pela Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e – o Edifício A Noite -, a Nacional deu seus primeiros passos apostando em formatos que eram novidade no Brasil.
Antes mesmo de ser estatizada pelo governo Getúlio Vargas e viver seu ápice, a rádio já tinha conquistado um lugar na história da comunicação.
Na época em que a emissora foi criada, outras rádios já existiam no país. O potencial de público era enorme, diante da limitação dos jornais impressos, como explica o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), João Batista de Abreu.
“O censo de 1940 indicava que o Brasil tinha em torno de 45 milhões de habitantes. Desses, 56% dos adultos eram analfabetos. Imagina o que isso significa em termos de abertura de informação. O primeiro veículo de comunicação popular, de massa, a falar para o analfabeto foi o rádio”.
Por outro lado, segundo o professor da UFF, . Nessa época, um receptor de rádio tinha o tamanho de uma geladeira e custava o equivalente a R$ 8 mil em valores de hoje.
O se aprofunda no contexto em que a Rádio Nacional nasceu, e a fala da Segunda Guerra Mundial e do governo Getúlio Vargas:
A Nacional foi instalada em um símbolo modernista: o Edifício A Noite, casa da emissora por mais de 70 anos.
“É um marco na arquitetura brasileira, uma mudança nos parâmetros dessa arquitetura. Começa a transformar a cidade colonial portuguesa e ‘afrancesada’ por Pereira Passos em uma cidade americana, dos grandes arranha-céus”, explica Alberto Taveira, arquiteto do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
O prédio era do mesmo grupo que comprou os equipamentos e a frequência da Rádio Philips e a transformou na Rádio Nacional. O nome do jornal da empresa batizou também o edifício.
Hoje o edifício é tombado e reconhecido como patrimônio histórico e cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O conta melhor essa história:
Foi com as primeiras notas de Luar do Sertão, às 21h, que a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, fez a primeira transmissão. E a voz inaugural foi a de Celso Guimarães, primeiro diretor de broadcasting da emissora: “Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”.
Fora do ar, o evento de lançamento contou com ministros de Estado, embaixadores, parlamentares e membros da elite financeira da então capital federal.
“Foi fantástico, havia um avião divulgando uma grande festa pela cidade. A Rádio Nacional surgiu com pompa e circunstância”, lembra Cristiano Menezes, ex-diretor da emissora.
Voltando às ondas do rádio, também teve discurso do presidente do Senado e até mesmo uma bênção direto do Palácio São Joaquim – a primeira transmissão externa da Nacional. Os detalhes estão no :
Quando foi criada, a Rádio Nacional contava com a concorrência de emissoras já populares, como a Mayrink Veiga. Mas o objetivo do grupo A Noite era ainda mais ambicioso: ultrapassar os limites do estado, como fala Lia Calabre, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense e da Fundação Casa de Rui Barbosa, no .
“A Rádio Nacional vai ampliando a sua potência. Ela já começa, para as rádios do momento, com uma potência significativa, com uma pretensão de alcançar para além dos limites do estado, para que em alguns horários ela possa ser ouvida em boa parte do país, mas não todo. Mas o alcance realmente do conjunto do país, para além das fronteiras, para a Amazônia, para o Mato Grosso, ele vai se dar, efetivamente, com as ondas curtas e aí, sim, a rádio já estatizada. Mas havia, desde o nascimento, com o grupo privado que a criou, uma ideia e um desejo de ter uma rádio de alcance nacional.”
No início, a emissora tinha uma estrutura mínima: duas seções, uma artística e uma administrativa, e menos de 30 pessoas dividindo funções que hoje seriam de equipes inteiras. A programação era fragmentada, com espaços de 15 minutos para cada profissional.
Quem conta bem sobre este período é um dos nomes mais importantes da história da Rádio Nacional: Henrique Foréis Domingues, conhecido como Almirante.
“O primeiro contrato sério que eu tive foi na Rádio Nacional, em 1938. Não se fazia, não se usava muitos artistas. O artista era eu só. Eu só é que falava, eu que cantava, eu que fazia vozes. Eu fazia as vozes de homem, de mulher, de velho, de velha, de bêbado, de alemão, tudo isso.”
Com a chegada de Almirante, a Nacional começa a mudar completamente a forma com que se fazia rádio. Ele foi um dos responsáveis por criar o conceito de “programa montado”, planejado e com novos formatos e participações novas a cada edição.
O repertório musical também fez história. O maestro Radamés Gnattali experimentou novas formações num tempo em que somente metade dos cantores interpretava música brasileira, como conta o professor e compositor Henrique Cazes.
“A equipe toda era muito bem preparada, era muito bem aparelhada. Isso é que fez com que tivesse um alto padrão profissional, isso que fez com que possibilitasse a experiência. O Radamés sempre andando um pouco à frente, né? E o Radamés, ele adere um pouco ao modelo de harmonização e de menos enfeite no arranjo que depois se consagraria na Bossa Nova e, principalmente, na MPB.”
O traz mais informações sobre esses movimentos:
A Nacional também amadureceu o conceito de grade de programação, com música, informação, esporte, publicidade e humor. Esse é o tema que da série 90 Anos em 90 Histórias:

