O avanço de tecnologias presentes no cotidiano — como celulares, equipamentos médicos, carros elétricos e fontes de energia limpa — depende de insumos estratégicos que ainda são pouco conhecidos pela população. Entre eles estão as terras raras, minerais fundamentais para a indústria moderna e para a transição energética. Com potencial relevante nesse setor, o Brasil busca ampliar sua capacidade de produção e inovação, tema que esteve no centro de workshop do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), com participação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
O encontro integrou a atualização do estudo sobre terras raras no País, com horizonte até 2040. Representando o MCTI, o diretor do Departamento de Programas de Inovação (Depin), Osório Coelho, participou das discussões ao lado de especialistas, pesquisadores e representantes de instituições estratégicas. O objetivo foi revisar cenários, identificar desafios e apontar caminhos para o fortalecimento da cadeia produtiva nacional.
Para Osório Coelho, a atualização do estudo acompanha a evolução recente do tema no País e no mundo. “Já havia alguns anos que o estudo tinha sido feito e, com o avanço da agenda de minerais estratégicos no Brasil, entendemos que era o momento de atualizar essa agenda. Estamos falando de um tema cada vez mais relevante, diretamente ligado à transição energética e à soberania tecnológica dos países”, afirmou.
Ele destacou ainda que o desafio vai além da exploração mineral. “Mais importante do que extrair é avançar nas etapas seguintes da cadeia, que concentram maior valor agregado, como refino, separação e desenvolvimento de produtos com maior complexidade tecnológica. O estudo é fundamental para orientar políticas mais integradas”, completou.
A iniciativa dá continuidade a uma agenda construída ao longo da última década. Em 2013, o CGEE elaborou, a partir de demanda do MCTI, um estudo voltado à estruturação de políticas para o setor, incluindo análise de cenários globais e definição de prioridades industriais. A atualização considera mudanças no contexto internacional, marcado por disputas por recursos críticos e pela aceleração da transição energética.
Durante o workshop, foram debatidos temas como o cenário internacional, prioridades nacionais e a construção de um novo plano estratégico para o período de 2026 a 2040. A programação também abordou etapas críticas da cadeia produtiva, que vão da mineração ao desenvolvimento de aplicações industriais, além de aspectos ligados à sustentabilidade e à economia circular.
Para o presidente do CGEE, Anderson Gomes, o trabalho coletivo é essencial para orientar decisões públicas. “Esse esforço de articulação não é pontual. Ele se insere na missão do CGEE de conectar produção científica e análise estratégica para tomada de decisão pública. Ao reunir pesquisadores, centros de pesquisa e atores institucionais, o centro contribui para consolidar uma base de evidências capaz de orientar políticas públicas mais robustas e coordenadas. Entregaremos os resultados à ministra Luciana Santos [MCTI]”, disse.
A atualização do estudo busca integrar políticas mineral, industrial, energética e de defesa, diante do papel cada vez mais estratégico desses insumos para o desenvolvimento do País. A previsão é de que, nas próximas semanas, o grupo de trabalho dê continuidade às discussões com a elaboração de uma minuta inicial do novo documento.
Terras raras: o que são e por que importam
As chamadas terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos com propriedades únicas, especialmente magnéticas, ópticas e eletrônicas. Apesar do nome, não são exatamente raras na natureza, mas são difíceis de extrair e processar, o que as torna estratégicas.
Esses elementos estão na base de tecnologias que fazem parte do cotidiano e da transição energética. São essenciais, por exemplo, na fabricação de ímãs de alta potência, baterias, semicondutores e catalisadores, além de não terem substitutos com o mesmo desempenho.

- Ascom/MCTI
Sobre o estudo
Publicado pelo CGEE em 2013, o estudo Usos e Aplicações de Terras Raras no Brasil: 2012-2030 traçou um diagnóstico das cadeias produtivas desses minerais estratégicos e indicou caminhos para políticas públicas em ciência, tecnologia e inovação. À época, o levantamento apontava forte concentração global da produção — cerca de 97% sob domínio da China —, cenário que reforçou a importância de diversificar fornecedores e ampliar a capacidade nacional.
O documento identificou aplicações industriais em áreas como ímãs permanentes, catalisadores, ligas metálicas e materiais para polimento, todos essenciais para tecnologias de alto desempenho. O levantamento também destacou o potencial do Brasil para avançar nesses segmentos, desde que amplie o mapeamento de reservas, invista em pesquisa e fortaleça etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva.
Com base em análises de cenários, dados científicos e registros de patentes, a publicação apontou desafios estruturais e oportunidades para o País. Entre as recomendações estão o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica, a formação de especialistas e a integração entre mineração, indústria e inovação. A perspectiva traçada à época aponta para a inserção competitiva do Brasil no mercado internacional, com maior autonomia na produção e uso de terras raras.

